A crise enfrentada pelo agronegócio tem refletido sobre o valor das fazendas ofertadas em Goiás. Segundo a Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), áreas que antes poderiam ser vendidas por até R$ 200 mil o hectare, agora podem ser encontradas por valores a partir de R$ 105 mil, ou seja, quase a metade do preço.
O corretor Frederico Mesquita entende a desvalorização como um reflexo de um ciclo: aumento de endividamento, dificuldades de crédito e aumento de recuperações judiciais no setor.
“Na prática, quando uma terra está muito desvalorizada, raramente é só ‘oportunidade’. Na maioria das vezes, existe algum fator de pressão por trás: financeiro, jurídico ou produtivo. E é justamente isso que o comprador precisa saber identificar antes de olhar só o preço”, esclareceu.
O vice-presidente interino da Faeg, Enio Fernandes, explicou que os valores das terras podem variar de acordo com o tamanho e com a região em que está localizada.
“Se for uma área pequena, muito bem localizada e tiver vários players em volta capitalizados, ele não vai vender por R$ 150 mil, ele vai vender muito perto de R$ 180, R$ 170 mil o hectare. Agora, se for uma área maior, de 500 ou 800 hectares, eu tenho um número restrito de compradores. Preciso de muito capital e a pessoa faz a conta: se eu aplicar o dinheiro, eu ganho mais do que comprar essa terra. Então o número de interessados nessa área é bem menor. Ele vai ter que vender num preço mais baixo”, esclareceu.
Enio relatou ainda que as terras rurais nas regiões ao norte do estado tiveram reduções mais acentuadas. “Se o produtor em Rio Verde, Jataí e Mineiros está com dificuldade de pagar suas contas, onde tem duas safras, imagina nessas regiões onde o produtor tem menor assistência técnica, as áreas são mais novas, a produtividade é menor, o custo de produção é maior e o preço da soja é mais baixo?! Então, nessas áreas a dificuldade é maior”, relatou.
O corretor de imóveis Gesmar Martins entende que a redução dos valores de terras vendidas está relacionada ao contexto econômico geral, associado à queda no valor das commodities e às dificuldades do produtor em manter a fazenda com insumos e mão de obra. Mas ele vê a redução como uma oscilação natural do ramo imobiliário.
“É quase que perene essa questão de menção de desvalorização. O que existe, de forma bastante comum, é, para qualquer tipo de imóvel, o mercado imobiliário oscilar. Isso é normal, é comum. Investimento no rural ainda é, sem dúvida, a melhor opção imobiliária, mais segura e que mais agrega valor”, ressaltou.
O corretor Raphael Barra compactua da mesma opinião e afirmou que terra rural não pode ser analisada apenas pelo valor em reais. “Quando olhamos apenas o preço nominal, parece que houve uma grande queda após o pico pós-pandemia. Mas quando analisamos equivalência em commodity, capacidade produtiva e fundamento patrimonial, percebemos que, na maioria das vezes, o mercado apenas voltou ao seu eixo racional”, defendeu.
Barra explicou que a terra não perdeu valor, mas que “saiu da euforia e retornou ao fundamento”. Ele reforçou que o setor vive uma queda no valor das commodities, baixa do dólar, custo alto de produção, crédito mais restrito, alto endividamento do produtor e os reflexos de uma inflação.
“Isso reduz liquidez. Isso trava negócios. Mas isso não significa que a terra perdeu fundamento. Significa apenas que existe uma diferença entre o valor que o proprietário deseja e aquilo que o mercado aceita pagar naquele momento. E é justamente aí que mora a força do imóvel rural”, contou.
Aumento dos pedidos de recuperação judicial
Quanto ao aumento dos pedidos de recuperação judicial pelo setor, o advogado Rafael Brasil relatou que os produtores de soja estão entre os que mais ingressam com pedido de recuperação. Isso se deve ao fato de todo o capital estar investido na produção de soja, o que, segundo o advogado, deixa o produtor vulnerável a qualquer mínima variação.
“O que a gente percebe é um movimento natural na variação do preço da saca de soja que, em 2023 estava mais de R$ 200 e hoje não é a realidade. Os produtores alavancaram todo o patrimônio para poder produzir mais soja, para conseguir aumentar sua produção, só que o valor da soja, ao invés de disparar, fez foi cair”, explicou.
O advogado contou que, diante desse cenário, muitos produtores tiveram que reduzir a produção. Entre os motivos mais frequentes para que o produtor entre com pedido de recuperação judicial, o advogado lista a crise climática e a crise na cadeia de suprimentos.
“Alguns até falam de guerra da Ucrânia e Rússia, porque a maioria dos suprimentos realmente vem da Rússia. Boa parte do que eles necessitam para a produção vem de lá. Quando nós temos crises climáticas, excesso de chuva, falta de chuva, isso pode prejudicar a safra de especificamente de soja, milho, cana”, relatou.
Fonte: G1


