O colorido vibrante das penas vermelhas no topo da cabeça, que se estende até parte do dorso em contraste com o restante do corpo preto, torna o macho do soldadinho (Antilophia galeata) uma das aves mais admiradas das matas ciliares do Brasil.
O traje “de gala” faz com que a espécie seja facilmente reconhecida e muito almejada por observadores em seu habitat natural.
No entanto, durante uma expedição recente pela região da Terra Ronca, no município de São Domingos (GO), uma equipe de ornitólogos teve um encontro surpreendente. Fábio Nunes, Weber Girão e outros membros da ONG Aquasis observaram um indivíduo diferente: o soldadinho apresentava uma mutação genética e, em vez do característico topete vermelho, exibia uma coloração alaranjada.
“Quem nos mostrou essa ave foi o guia local Wilian Oliveira. Ele já tinha observado essa situação anteriormente, inclusive com mais de um indivíduo, mas eu mesmo nunca tinha visto essa mutação na natureza. O caso mais diferente que observei foi o de um indivíduo híbrido”, comenta Weber Girão, ornitólogo responsável pela descoberta na natureza de um parente desta ave, o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni).
O laboratório bioquímico dos pássaros
Mas por qual motivo as penas desse indivíduo estariam com essa cor? Diferentes casos de mutação genética são conhecidos na ornitologia. Um estudo publicado em 2012 na revista BioOne revela como é composta a cor vermelha no grupo ao qual o soldadinho pertence, os piprídeos (também conhecidos como manaquins), e o que explica essa alteração visual.
A beleza dessas aves é resultado de um segredo bioquímico. Já se sabe que algumas aves obtêm o colorido das penas a partir do consumo de alimentos que possuem carotenoides comuns. No caso dos piprídeos, porém, a ação vai além.
De maneira simplificada, o organismo desses pássaros funciona como um laboratório químico: ao ingerir alimentos com carotenoides amarelos, ocorre uma reação que gera uma substância específica batizada de piprixantina. Essa substância é posteriormente convertida em rodoxantina (retro-carotenoide), o que resulta no tom vermelho intenso.
Nos piprídeos, a rodoxantina é um elemento importante da evolução do grupo e uma peça essencial na seleção sexual dessas aves. O processo bioquímico é tão específico que tornou essas espécies capazes não apenas de “sequestrarem” o pigmento dos alimentos, mas de gerarem uma coloração única.
Uma análise anterior realizada com um tangarazinho (Ilicura militaris) que apresentava um colorido amarelo onde deveria ser carmim apontou que essa mutação é uma falha justamente no final desse processo químico.
Muito provavelmente, foi isso que ocorreu com o soldadinho observado em Goiás: o processo para a construção do seu colorido intenso não foi concluído, resultando no topete alaranjado.
“Tal como já foi observado no tangarazinho, a partir dos nutrientes corretos (luteína e zeaxantina), essas aves sintetizam o pigmento que lhes dá a cor avermelhada. O fato de isso já ter sido observado numa outra ave da família não torna o evento comum. Muito pelo contrário, quem viu se sente agraciado”, comenta Fábio Nunes, que aproveitou a ocasião para fotografar a ave.
Fonte: G1
