Entre rezas e votos
“Vamos para a Romaria da Lapa, dona Senhora!” Era assim que os romeiros chamavam Ana Rodrigues, mais conhecida como Dona Senhora, primeira-dama de Nossa Senhora Santana da Posse, esposa do então prefeito Nestor Balduíno de Souza. Ouvia de pronto a resposta brincalhona e jocosa, cheia de filosofia popular: “Boa romaria se faz, quem na sua casa se acha em paz!” Era uma espécie de alerta para não haver excessos. Depois, como toda a comunidade, encilhavam suas montarias e rumavam para a Terra Ronca para cumprir seus votos e suas devoções anuais.
As festas populares, folclóricas e religiosas sempre foram um termômetro preciso para medir a saúde moral, cívica e religiosa do interior do Brasil, e neste Vale do Paranã não foi diferente. Era através das manifestações populares que coronéis, padres e políticos monitoravam seus currais eleitorais e mediam o poder aquisitivo de sua gente. Um frango arrematado no leilão da quermesse era sinal de status e devoção. Além do tempero caprichado das beatas, o felizardo ainda levava a bênção do vigário, o olhar admirado dos vizinhos e o respeito do coronel.
Festa do Divino, Folia de Reis, barraquinhas, quermesses, terços, leilões, fogueiras, novenas e tantas outras celebrações herdadas do paganismo e adaptadas ao cristianismo faziam — e ainda fazem — a fé aquecida e a esperança viva do povo à espera da redenção prometida pelo Jesus bíblico, católico e compassivo.
Uma das manifestações culturais mais populares e cheias de esplendor são as tradicionais Cavalhadas, evento realizado em Goiás há mais de 200 anos, desde que foi introduzido na então Província de Goiás, no século XVIII. O primeiro registro data de 1751, na cidade de Luziânia, então chamada Santa Luzia.
Instituídas pela rainha Isabel de Portugal, motivada por conflitos religiosos da época, as Cavalhadas representam a luta entre cavaleiros vestidos de azul (cristãos) e vermelho (mouros), armados com lanças e espadas.
A Cavalhada é uma celebração portuguesa tradicional, com origem nos torneios medievais, onde aristocratas exibiam publicamente sua destreza e valentia, frequentemente inspirados pelos acontecimentos da Reconquista.
Essa prática festiva, ritualística, folclórica e também política permanece viva em diversas regiões do estado.
Essas manifestações populares fortaleceram de forma decisiva o nosso folclore, nossas tradições e nossa cultura, preservando a história e a identidade de nosso povo. É verdade que, nos últimos tempos, muitas dessas tradições vêm cedendo espaço para novas ideias, movimentos e formas de comunicação. Ainda assim, permanecem como uma força cultural marcante nos municípios do Nordeste Goiano.
O antigo “Correio Elegante” cedeu lugar ao popular WhatsApp, e o cochicho ao pé do ouvido abriu espaço para as fake news, numa espécie de transgressão informatizada do oitavo mandamento.
Eu, como observador e contador das coisas da nossa gente, sigo como um caburé atento, girando o pescoço e acompanhando as transformações da nossa arte, das nossas tradições e do nosso povo.
Os cabelos brancos e as rugas do meu rosto testemunham que vivi intensamente este pedaço do Brasil, compartilhando alegrias e tristezas, vitórias e desafios. Este é o nosso canto, a nossa Posse. Uma jovem senhora de 154 anos que ainda entoa sua canção libertária, mantendo a mente aberta e sempre alerta para uma verdade inevitável:
“O novo sempre vem!”
Charles Valente
Jornalista e Cantador
Instagram: @charlesvalenteoficial
Spotify: Charles Valente


