Por Guilherme Henrique,
A Expoagro de Campos Belos (GO) não é apenas uma festa inscrita no calendário anual. É uma expressão histórica da força agropecuária, comercial e cultural do nordeste goiano. Nascida da relação orgânica entre o campo, a cidade e seus fluxos regionais, participa da formação do imaginário coletivo local, em que a identidade campobelense, ainda em elaboração, aparece vinculada ao homem do campo, à cultura sertaneja e aos saberes populares que atravessam a cidade. Mais que entretenimento, tornou-se patrimônio afetivo, simbólico e social da população. Ao longo dos anos, recebeu grandes nomes da música nacional e atravessou gerações como espaço de encontro, memória e pertencimento. Não por acaso, a edição que mais permanece viva no imaginário popular é a de dez anos atrás, lembrada como uma das mais marcantes de sua trajetória recente.
Durante esse intervalo pós pandemia, Campos Belos viveu uma suspensão simbólica, econômica e institucional. A festa tentou dar passos, especialmente por meio de iniciativas privadas, como ocorreu em 2022 e 2023. O Sindicato Rural, dentro de suas limitações, buscou preservar algum fio de continuidade e chegou a trazer atrações de renome nacional, como Guilherme e Benuto, Paraná e Calcinha Preta, reconhecida popularmente como a maior banda de forró do planeta. Houve esforço, investimento e tentativa legítima de manter viva uma tradição que já não encontrava o mesmo terreno de antes. Ainda assim, a baixa adesão e as reclamações constantes não significavam mera ingratidão contra quem tentou fazer, mas sintoma de uma equação social mais complexa. No pós-pandemia, com cidades vizinhas oferecendo programações gratuitas jamais vistas, o público passou a comparar não apenas atrações, mas condições de acesso. O povo, ao seu modo, deu uma resposta. Não rejeitou a tradição; rejeitou a sensação de estar pagando por aquilo que, em outros lugares, já aparecia como experiência pública, gratuita e amplamente partilhada.
É nesse ponto que a crítica deixa de ser apenas econômica e alcança uma dimensão mais incômoda. Em Antígona, de Sófocles, Creonte encarna a figura daquele que, confundindo autoridade com razão, sacrifica os vínculos mais antigos da cidade para preservar a rigidez da própria vontade. Toda cidade conhece esse risco: quando a condução do comum se deixa atravessar pelo orgulho, pela vaidade ou pela necessidade de afirmar poder, aquilo que pertence ao povo passa a ser tratado como peça secundária. Também em As Metamorfoses, Ovídio apresenta Narciso como aquele que, diante da própria imagem, perde a possibilidade do outro. A tradição, então, não morre por falta de memória popular. Morre quando quem deveria protegê-la prefere assistir ao seu enfraquecimento a dividir o protagonismo de sua permanência.
Do ponto de vista econômico, a Expoagro deve ser compreendida como ativação temporária da economia urbana. A literatura sobre turismo de eventos, como observa Fochezatto, demonstra que a presença concentrada de visitantes produz efeitos diretos e indiretos sobre renda, emprego e serviços. Em Campos Belos, isso se traduz no aumento da demanda por hotéis, bares, restaurantes, postos de combustíveis, salões, lojas, ambulantes, segurança, comunicação e montagem de estruturas. Em municípios afastados dos grandes centros, esse movimento ganha ainda mais relevância, pois amplia provisoriamente o mercado consumidor e faz circular recursos em setores que operam sob baixa densidade econômica. Como também indicam o Ministério do Turismo e a OCDE, eventos culturais e musicais podem qualificar destinos, reposicionar territórios e gerar ganhos locais quando articulados à dinâmica econômica da cidade. A Expoagro, portanto, movimenta o palco, mas sobretudo reorganiza, ainda que por poucos dias, o circuito material de Campos Belos.
A edição deste ano está confirmada e acontece de 1º a 5 de julho, com o tradicional rodeio e a tradicional cavalgada, elementos que devolvem à Expoagro sua gramática original: o vínculo com o campo, com a cultura sertaneja e com os ritos populares que sempre organizaram sua identidade. As inscrições para a escolha da rainha se encerram hoje, marcando o início simbólico dessa retomada. À coluna, o influenciador Kaio Henrique afirma que o clima é outro: há uma sensação de nostalgia, expectativa e recomposição coletiva. Para ele, a volta da Expoagro recoloca Campos Belos no radar dos grandes eventos da região e devolve à cidade uma centralidade que parecia adormecida.
Em conversas também com a coluna, o presidente do Sindicato Rural, Orlando Junior, afirmou que a grade de atrações está praticamente fechada. Reconhece que o processo foi difícil, desde a captação de recursos até a construção de uma proposta capaz de atrair verba pública, especialmente diante do valor elevado dos cachês artísticos. Ainda assim, sustenta que fez o melhor possível para restaurar a festa e entregar uma edição forte, organizada e à altura das condições vigentes.


